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No meu Palato

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Quinta das Lágrimas | Ter o coração no lado certo

"Vede que fresca fonte rega as flores, que lágrimas são a água e o nome Amores." Luís de Camões

Quinta das LágrimasMuito antes de Shakespeare criar o Romeu e a Julieta, já Portugal vivia a sua própria tragédia romântica através de Pedro e Inês. Esta história de amor tornou-se lenda e inspiração para poetas, escritores e artistas ao longo dos diferentes séculos. É exactamente por isso que a cada narrativa deste romance, fica mais difícil diferenciar o facto do mito. Apesar disso, os elementos principais do amor proibidamente eterno, permanecem puros na sua essência.

Quinta das LágrimasVamos aos factos, há uns tempitos, em 1339, o príncipe Pedro, filho do rei Afonso IV de Portugal, casou-se com Constança de Castela, consumando uma aliança que unia duas potências ibéricas. Inesperadamente, Pedro apaixonou-se por uma aia da sua nova esposa, a nobre Inês de Castro.

Quinta das LágrimasO caso já era amplamente conhecido na corte e o casal pecaminoso teve quatro filhos. Enquanto isto, Constança "lutava" para dar um filho barão a D. Pedro. Da primeira tentativa nasceu em Évora a 6 de Abril de 1342 D. Maria, era saudável mas faltava-lhe quelque chose ;)  Da segunda investida nasce D. Luís, em 1344 .

Quinta das LágrimasLuís já tinha o que faltava a Maria (;)), mas morre uma semana depois... Quando finalmente D. Constança, em 1349, consegue gerar um filho barão saudável (D. Fernando), morre no parto (esta mulher não teve muita sorte, com estes problemas todos ainda passou a ser "a  outra" da história...).

Quinta das LágrimasQuando D. Constança morre Pedro recusa-se a se casar com outra mulher além de sua amada Inês, que foi considerada pela conselheiros reais uma opção altamente perigosa para futura rainha de Portugal. Entretanto, o único filho legítimo de Pedro, o futuro rei Fernando I de Portugal, ainda criança, começa a mostrar-se frágil, com inúmeros problemas de saúde.

Quinta das Lágrimas

Por seu lado, os bastardos de Inês (D. Afonso, D. João, D. Dinis e D. Beatriz) estavam rijos e espadaúdos, prometendo chegar à idade adulta. A nobreza portuguesa começava então a inquietar-se com a crescente influência castelhana sobre o futuro rei.

Quinta das LágrimasÉ então que o rei Afonso, frustrado com a teimosia do filho e preocupado com a estabilidade do seu reinado, escolheu três assassinos para irem a Coimbra matar Inês. Quando D. Inês soube desta resolução, foi ter com o rei, rodeada dos seus filhos, netos do rei, para implorar misericórdia, uma vez que ela se considerava isenta de qualquer culpa. O único culpado é o Cupido neh? Matem-no a ele :P 

Quinta das LágrimasAs súplicas de Inês só momentaneamente apiedaram D. Afonso IV. A 7 de Janeiro de 1355 Inês morre assassinada pelos carrascos Pero Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco, na Quinta das Lágrimas em Coimbra. Pedro, enfurecido, rebelou-se contra seu pai e começa uma guerra civil. Luís de Camões eternizou este momento n'Os Lusíadas, Canto III, num poema que está esculpido numa pedra pedestal próximo do local onde foi assassinada Inês.

Quinta das LágrimasNele o nosso maior poeta informa os visitantes que a fonte simboliza o rio de lágrimas choradas por Pedro na morte de Inês. E que, com a virtude eterna do amor verdadeiro, essas lágrimas continuam a dar sustento às flores e árvores nos mesmos jardins que anteriormente testemunharam a paixão deste casal. Há quem diga também que o tom avermelhado das pedras por baixo da fonte das Lágrimas se deve ao sangue derramado pela bela Inês.

Quinta das LágrimasAgora o mito e a lenda, quando Pedro é coroado rei, logo após morte de seu pai, anuncia à corte que já se havia casado, em segredo, com Inês antes que ela fosse assassinada. Ordenou mais tarde que o corpo dela fosse exumado e forçou toda a corte a jurar lealdade ao seu cadáver. A dois dos assassinos que foram capturados (Pero Coelho e Álvaro Gonçalves, Diogo Lopes Pacheco conseguiu fugir), Pedro arrancou os seus corações com as próprias mãos (Pedrito, Pedrito, havia necessidade? Não chegavam uns tabefes? ;)), pois segundo ele, não mereciam ter coração, porque eles arrancaram o seu quando assassinaram a sua amada.

Quinta das LágrimasTodo este legado histórico pode ser revisitado  in loco na lindíssima e formosa Quinta das Lágrimas em Coimbra, carregada de natureza, charme, história, elegância e experiências sensoriais. Essa herança de património sentimental é tão avassalador que outro nome incontornável da nossa história, Amália Rodrigues, desejou ter nascido lá. 

Quinta das LágrimasDurante séculos esta Quinta foi um santuário privado de família por onde passaram Reis, Imperadores, saudosistas e sonhadores, está agora reaberta (com selo “Estabelecimento Clean & Safe”: testemunhamos muita segurança e cuidados de higienização mas com elegância e sem intrusão) a todos quantos apreciem a arte de bem viver e que queiram descobrir, de bem perto, a bela lenda de amor de Pedro e Inês.

Quinta das LágrimasPor falar em reis, a suite do Rei onde ficamos instalados é dos quartos mais bonitos onde tivemos o privilégio de dormir. É impossível ficar-se indiferente a tamanha carga histórica e imensidão de adornos rusticamente elegantes. É certo não havia Rei (também com esta fama de assassinar noras e arrancar corações a traidores é bom mesmo que se mantenham longe), mas havia uma bela de uma rainha, uma princesa irrequieta e um príncipe bastante divertido ;)

Quinta das LágrimasEste local encantado permite fazer o que tantas vezes anisamos: uma pausa na agitação do dia a dia, um retiro de conforto, natureza e paz num palácio do século XVIII rodeado de 12 hectares de jardins históricos, inúmeros séculos de estórias, muita água, e uma gastronomia com muita alma (tal foi a surpresa no nível de cozinha que lá encontramos que o restaurante vai ter direito a uma publicação própria ;)).

Para as famílias há ainda dois outros aliciantes, o primeiro é o de que as zonas de diversão como a piscina ou o SPA estão pensadas de forma a que seja muito fácil vigiar os mais novos, mantendo a distância social. O segundo é o facto da Quinta das Lágrimas ser vizinha do Portugal dos Pequenitos, é muito cómodo dar lá um pequeno salto e provocar uma alegria desmesurada na pequenada.

  Quinta das LágrimasForam três dias de sonho ... bem reais. Esta relação entre mito e realidade, levada ao extremo nesta Quinta, já foi discutida por Fernando Pessoa, que classificou o mito "como o nada que é tudo", defendendo que a realidade deriva de mitos e que a única dúvida que possuía era a de saber com quantos mitos se constrói aquilo que é real.

Quinta das LágrimasLenda ou verdade apaixonada, isso não importa. Tentando evitar quaisquer clichés e esquecendo a execução draconiana, esta será sempre a história da linda Inês, a eterna Julieta castelhana e do seu amado Romeu português. Uma história que nos mostra, através da realidade dos factos, ou do mito do poeta, que o amor que prevalece é aquele resultante de sabermos ter, sempre e a cada momento, o coração do lado certo: o da incondicionalidade, da ternura, da verdade e da memória afectiva.

Quinta das LágrimasHaverá sitio mais bonito para provarmos cada um destes aromas que constituem o verdadeiro amor, que a Quinta das Lágrimas? Ide com a vossa cara-metade e vede que fresca fonte rega as flores, que lágrimas são a água e o nome Amores. Que as lágrimas, deste vez, sejam de alegria ;)

 

Quinta das Lágrimas

Rua António Augusto Gonçalves
Coimbra, 3041-901